CINZAS

Andreas Lischka - wood
Fotografia de Andreas Lischka

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CINZAS

para Amélia Pereira, minha avó

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o cheiro das cinzas é quase
tão indecifrável quanto
a efusão da tinta.
com elas escrevemos
não palavras, mas o silêncio,
não a manhã, mas memórias,
não o fim, mas um rosto –
também ele impossível
de dizer,
seja de que forma for

26.01.2022

ESTA MANHÃ O SILÊNCIO

Nuno Araújo
Fotografia de Nuno Araújo

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ESTA MANHÃ O SILÊNCIO

esta manhã o silêncio subiu pelas paredes e pelas asnas,
trepou as travincas, as teias altas, as cérceas geladas

e atravessou a pedra, o cimento, as fissuras, o próprio ar

sou agora toda a minha vida, toda a minha vida
e a casa estremeceu e as palavras (ferro congelado)
doeram nas mãos

DA NOSSA SOLIDÃO

Carmit Rozenzvig
Fotografia de Carmit Rozenzvig

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DA NOSSA SOLIDÃO

tinha esquecido para que serve
a infância
José Tolentino Mendonça

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nenhum de nós habita ao certo
o tempo que o calendário e os relógios calculam.
a outra era pertencemos por vezes,
como se, clandestinos, corrêssemos a noite
em busca de um aroma, de uma voz,
de um nome

como de novo se vivessem aqueles que um dia,
na sua descarnada natureza, deixaram
de poder abraçar-nos,
como se por milagre tivéssemos reencontrado
o rosto inexplicável, o rosto imenso
da nossa própria solidão

22.12.2021

VENDE-SE

Bragi Ingibergsson - BRIN
Fotografia de Bragi Ingibergsson

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VENDE-SE

cotos de sabão secando nas margens do tanque,
frascos vazios e teias de aranha no parapeito das janelas,
algum fruto esquecido,
triste até à exaustão

dentro das gavetas naftalina,
peças brancas de linho, cambraias, lenços, os coturnos de lã

a esmo, no remanso de uma caixa de sapatos, os óculos,
os teus alfinetes, retratos ovais cor de sépia,
suponho que duas ou três algumas cartas,
não de amor mas dos filhos, do ultramar,
o bilhete de identidade com o dizer “vitalício”

alguém juntou tudo à pressa

fecharam os portões com arame e um cadeado grosso,
puseram à mostra, em letras gordas, a vermelho,
as palavras “vende-se”

depois veio da imobiliária uma moça loira, de minissaia

percebia bastante destas coisas,
torceu o nariz mais do que uma vez,
disse que da casa não era de esperar grande coisa

as saudades estão hoje ao preço da chuva

OUTUBRO

Martin Rak
Fotografia de Martin Rak

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OUTUBRO

no ponto exato do caderno onde deixaste o verão,
o sol é já um deus diminuído e só

outubro é a carne verde dos primeiros dióspiros

se dormes até mais tarde, ao abrires as janelas
vês a coluna de fumo ao longe
erguendo as fogueiras
até ao lugar onde os pássaros fogem

embriagas-te no odor da madeira incinerada,
no cheiro que a terra torna inconfundível
ao vibrar com os pingos
da chuva

no caderno ficou-te o traço firme das certezas

mas na boca agora só a amargura eclode,
só ela como a última cinza arde no corpo de uma vestal

CAIR DA TARDE

Annemieke Stuij
Foto: Annemieke Stuij

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CAIR DA TARDE

um a um os pássaros respondem ao meu círculo,
voam avulsos e concêntricos,
voam como voam as galáxias,
voam como voam os grãos de poeira

ao horizonte lanço o meu olhar mais fundo.
igual ao pescador, pacientemente
eu espero

agosto de 2013

PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

Alberto Ghizzi Panizza
Foto: Alberto Ghizzi Panizza

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PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

pelas frinchas da garagem
entram os dedos da lua

depois é um eco de velhas sucatas
adormecidas, cablagens e
candeeiros a petróleo, caixas de
sapatos e bonecos de caco,
coisas dispersas, despejadas pelo
tempo ao acaso através da pele

sem rasto é o cheiro do silêncio,
o rosto que nos pertencia
e hoje não passa de gelo talhado
a esmo, por entre as frestas
da memória

11 de maio de 2011